sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Iniciação à docência e contexto de greve

Essa atividade ocorreu durante o período da greve docente do estado do Rio de Janeiro que teve início em 2 de março e término em 26 de julho.
Nesse contexto de greve realizamos duas atividades: uma entrevista com o SindFaetec e a produção de um mural sobre as greves docentes em países hispano falantes.
O objetivo da entrevista foi saber um pouco mais sobre as reinvindicações dos docentes, saber se houveram greves anteriores e qual o papel desempenhado por esse sindicato e também saber quais foram os ganhos de greves anteriores caso tenham havido.
Sobre o painel, aproveitamos o momento da greve dos docentes do Rio de Janeiro, pesquisamos e comparamos as greves de países hispano falantes com a nossa greve, e a partir disso montamos um quadro para ficar exposto na escola para que os alunos e professores que circulavam por lá nesse período pudesse conhecer um pouco das reinvindicações de nossos países vizinhos.

A pesquisa foi separada por tópicos: a época em que a greve aconteceu, quais os motivos, as reinvindicações, como ocorreram as manifestações e o foi conquistado através da greve e, além disso, buscar as semelhanças entre a greve docente aqui no Brasil e nos países pesquisados.

ENTREVISTA COM O SINDICATO

“Greve é enfrentamento”
Bolsistas de iniciação à docência da UFRJ entrevistam dirigentes do SINDPEFAETEC

Os profissionais da educação da FAETEC decretaram greve por tempo indeterminado desde o dia 2 de março. O SINDPEFAETEC, uma hora antes de reunião com Wagner Victer, presidente da Fundação, concede entrevista ao PIBID – Espanhol, em sua sede. Além dos cortes de recursos que implicam queda da qualidade dos serviços prestados à população Gabriela Ferreira e Marcio Luiz Silva também falaram sobre suas vivências como sindicalistas e da participação dos professores da E.T.E.R no movimento. 


16 DE MARÇO, 2016

PIBID: Como o sindicato se comporta diante dos outros discursos relacionados à greve?
M: Tudo o que o sindicato fala é uma fala que é oficial e legítima. Agora quem não é fala o quer, porque é democracia, liberdade de pensamento. Agora a gente não pode ter liberdade de pensamento, porque eu quando abro a minha boca, eu não estou sendo visto como Márcio. Eu estou sendo visto como coordenador sindical.

PIBID: Como o sindicato vê a movimentação dos professores do República? A escola tem uma participação positiva para o momento?
G: Assim, o sindicato fez uma reunião na segunda-feira, a República está em dúvida. Vieram falar que há um disputa interna. O sindicato não disputa ninguém, o sindicato está fazendo convencimento, mas existe uma força aqui dentro de oposição que trabalha com a contra-informação. O sindicato não pode se responsabilizar pela fala do outro. A gente não estava presente e não ratificou a reunião organizada pelo grupo de oposição ao sindicato. Seja por bem, seja por mal, a fala oficial é a que prevalece. Então, se tem outra fala, as pessoas têm que ter uma leitura, elas têm que se colocar no momento da reunião oficial. Mas as pessoas se retiram da reunião, não falam.

PIBID: Como vocês veem a manifestação dos alunos? Eles devem participar ou isso cabe apenas aos professores?
G: Não, os alunos, quem são eles pra fazer qualquer manifestação? Mas o que alguns profissionais tentam fazer na greve é dizer para o aluno esvaziar a escola e com isso justificar sua ausência da sala de aula. O que a gente escuta é: "eu não estou em greve, mas os meus alunos não vieram", isso é uma tática mais antiga que andar pra trás.
PIBID: Com funciona está tática?
G: Nosso povo aqui faz isso. O professor quer dizer que está ali, mas não tem culpa de não estar na sala de aula porque os alunos não foram. Para o aluno, o professor está em greve, mas quando o diretor pergunta, ele não está, Isso é dúbio, é complicado, porque como a gente falou, greve é enfrentamento. Se levantou o braço, você tem que ter convicção que está em greve.

PIBID: De que forma uma greve se estabelece e se consegue a mobilização geral?
G: Você não faz uma reunião para falar em greve na escola. Primeiro a gente convence, o profissional se convence, depois ele convence o outro profissional e, depois quando você está convencido e vai pra greve, você passa para o aluno. Você não fala com o aluno antes, você não convence o aluno de que entrou em greve, porque a greve não é dele. Aluno tem grêmio, aluno pode se manifestar, aluno pode se rebelar e  pode dizer que ele não vai entrar na sala, mas não sou eu que vou dizer ao aluno que ele não tem que estar ali. Eu vou dizer pra ele que eu estou em greve e não vou dar aula. O que o aluno vai fazer é livre. Agora se esconder atrás do movimento estudantil é um clássico da nossa categoria. Quando você confronta os profissionais e fala "cara, você tá em greve?" é diferente, você obriga o profissional a falar "olha, eu não vou fazer greve porque eu estou com medo de ter um corte de salário". Beleza! Você tem direito, mas eu nunca vi alguém que faz greve sem medo. Se você está indo para o enfrentamento você corre o risco de tudo.

PIBID: Muitos professores não sabem como se posicionar acerca do que seja uma greve. Como o sindicato vê isso?
G: É assim, é como eu falei para o pessoal do República. Greve é assim, você vai à assembleia do seu sindicato, você levanta o seu braço porque você está convicto da greve e um abraço. Você não pede anuência do patrão, você não pede anuência do seu diretor, você não pede permissão para fazer greve. A greve é um enfrentamento. Quando eu decido que eu vou fazer greve, eu cruzo os meus braços e estou em greve. "Ah, eu tenho dúvida de como é que eu faço a greve!". Cruza os braços, as pessoas usam de todos os artifícios para se escorar e para se defender, mas não existe outra forma de se fazer greve a não ser parar o serviço.

PIBID: E sobre a questão da greve de ocupação?
G: Tudo bem, já fizemos greve de ocupação. Mas, greve de ocupação não é ficar dentro da escola. A gente entende que a greve de ocupação sempre foi uma necessidade na FAETEC. Em alguns governos, é necessária, mas nesse, agora tanto faz, não faz a menor diferença você estar na escola ou não estar.

PIBID: Uma das formas de pressionar é o lançamento de códigos de faltas para os docentes e funcionários. Como vocês vêem o lançamento dos códigos, trinta e sessenta um, pela presidência? Você acredita que os professores não conhecem esses códigos?
G: Eles conhecem, o que eu ouvi aqui no República é assim: as pessoas querem fazer greve com a garantia de tudo. Nesse ponto eu vou fazer o mea culpa do sindicato. A gente sempre garantiu para essa categoria aqui o céu. Na outra greve, a gente não teve corte de ponto. A gente passou quase 70 dias em contra o Plano de Cargos e Salários, em 2013. Quando eles visualizaram o contracheque zerado, no dia seguinte a gente reverteu. Então, assim, as pessoas estão acostumadas. Elas gostam de reclamar, mas a gente nunca deixou ter corte. Eles sabem que o código 61 é o código de greve. Só que na cabeça de todo mundo, o código 61 é corte e se a gente não judicializar é corte mesmo. Porque o sistema da SEPLAG lê o código 30 e o código 61 como falta. Os 2 são faltas. O código 30 é um código de falta sem justificativa e o código 61 é o código de falta por motivo de greve. Então agora, a provocação vai ser feita pelo sindicato. A gente vai judicializar a greve, porque a gente provoca o judiciário para ele bater o martelo e dizer que a greve é legal, aí o 61 vai resguardar todos os que estão com este código.

PIBID: Sabemos que a atuação em qualquer sindicato é bastante turbulenta. Por que vocês resolveram fazer parte de um sindicato formado por técnicos e docentes?
G: Antes de mais nada, o sindicato é paritário, ele tem que ser meio docente e meio administrativo. Essa é uma exigência do estatuto. Aqui existem membros de diferentes setores.
T: Eu sou instrutora e posso dizer que entrei para contribuir com essa coisa do PCS
G: A gente já está doido pra sair
M: O mais interessante, ao meu ver, é a permanência no sindicato porque a entrada tem várias motivações. É o que eu falei para você. Você está num momento de luta, então está participando ali. Alguém te convida porque acha que você tem alguma coisa a contribuir, e você entra. Agora, a manutenção é o diferencial, a gente avançou tanto dentro dessa luta que foi ficando fortalecido, vitaminado. Então, vai vendo que teu colega deposita em você. Te reveste de um poder que você não sabe que tem e passa a acreditar. Se ele acredita em mim, eu acredito também. Então você vê que é possível, se torna responsável por aquilo e vai acumulando responsabilidades.

PIBID: Não tem um tempo máximo que vocês podem ficar, como, por exemplo, quatro anos?
G: A gente tirou barreira do tempo limite
M: Se você deixar barreira a gente entrega o sindicato.

PIBID: Mas isso também não é, de certa forma,  autoritário?
G: A gente é eleito! É eleição!
M: A gente não é autoritário se a gente é escolhido.
G: Se toda vez você abre o pleito para você ser escolhido ou não, não é a gente que escolhe.
M: O interessante é isso, a gente não permanece porque a gente quer, a gente permanece porque as pessoas querem.

PIBID: Mas voltando ao assunto de entrar no sindicato.
S2: Eu fui parar no sindicato ao acaso. Um acaso que não existe. Mas, assim, ao acaso. Eu entrei como suplente, porque dentro do República eu era perseguida, ia sofrer sindicância, na época do diretor Adriano e tudo mais. Aí o pessoal falou que tinha vaga no sindicato,  e eu disse que lá eu não queria: insistiram pra eu aceitar ser suplente. Aí eu falei: “Beleza!”. Alguém me disse: “você acompanha a chapa, você chama voto para a chapa”. Só que assim que a chapa entrou em janeiro, já em fevereiro saiu alguém.

PIBID: Vocês sentem falta da vida de vocês antes do sindicato?
S2: Eu tenho uma inveja de ser categoria e só levantar o braço.(risos). Eu estou doida para ser manobrada! Eu quero ser manobrada! Ouvir o que o sindicato vai falar e levantar o braço. Esse é o meu sonho! Sabe por quê? É muito difícil quando a gente lida assim, é muito estressante. As pessoas estão perguntando: “Ah como você tem saúde?” Primeiro, eu não vejo Facebook. Se a gente se alimentar daquilo. Todo dia, a gente não consegue coordenar. Tem que ir à escola, ligar, ir à unidade. A gente é militante. Militante de verdade não tem vida, não faz sexo, não come, não tem família, não se preocupa em voltar pra casa. Dane-se o mundo. Se a assembleia terminar 22h, ele está ali. Ele é um soldado. A nossa categoria não é. “Mas eu tenho que buscar o meu filho na escola”. A categoria normal está ali para votar. Se a gente não faz uma assembleia mais objetiva, ela vai embora.

PIBID: As assembleias são espaços de debate e manobras. Como vocês veem as posturas da categoria e da oposição?
M: Quando você marca uma assembleia, você vê a estratégia da oposição certinha. Eles esticam a assembleia porque ela sabe que os mortais vão embora. Agora eles não largam, não saem dali. Então eles acabam sendo maioria.

PIBID: Vocês conseguem notar essas estratégias de manobras em outros campos da vida? Vocês têm essa percepção?
G: Sim. A gente estava até brincando no outro dia que a gente começa a escutar as falas, parece que vem uma tecla SAP embaixo. Sabe aquela legenda? Você está ouvindo o discurso, aquela fala bonita e você pensa “filho da mãe”. Eu não sei se isso é bom ou se isso é horrível, mas é assim. Por exemplo, quando a gente estiver na assembleia, conhecemos os dois lados, tanto da manipulação interna dos sindicatos, se houver, como da oposição. Então se pode defender um ou outro.*


          
    QUADRO DE 'HUELGAS'






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